terça-feira, 8 de março de 2011

UM POEMA PARA OS SOBERBOS, "ON LINE" OU NÃO

Narciso, um blogueiro, se olha no lago


de pó
Deus o fez.
Mas ele, em vez
de se conformar,
quis ser sol, e ser mar,
e ser céu... Ser tudo, enfim.
Mas nada pôde! E foi assim
que se pôs a chorar de furor...
Mas ah! foi sobre sua própria dor
que as lágrimas tristes rolaram. E o pó,
molhado, ficou sendo lodo - e lodo só!

Guilherme de Almeida (1860-1969)

Comentário do teacher:  Aprendi nas aulas de literatura, que além da        beleza este poema se caracteriza por começar com uma sílaba métrica e ir aumentando até terminar com doze. 

DISPENSO ESTA ROSA

terça-feira, 8 de março de 2011

 DIA INTERNACIONAL DA MULHER 

Dia 8 de março seria um dia como qualquer outro, não fosse pela rosa e os parabéns. Toda mulher sabe como é. Ao chegar ao trabalho e dar bom dia aos colegas, algum deles vai soltar: ”parabéns”.
Por alguns segundos, a gente tenta entender por que raios estamos recebendo parabéns se não é nosso aniversário (exceção, claro, à minoria que, de fato, faz aniversário neste dia). Depois de ficar com cara de bestas, num estalo a gente se lembra da data, dá um sorriso
amarelo e responde “obrigada”, pensando: “mas por que eu deveria receber parabéns por ser mulher?”.
Mais tarde, chega um funcionário distribuindo rosas. Novamente, sorriso amarelo e obrigada. É assim todos os anos. Quando não é no trabalho, é em alguma loja. Quando não é numa loja, é no supermercado. Todos os anos, todo 8 de março: é sempre a maldita rosa.
Dizem que a rosa simboliza a “feminilidade”, a delicadeza. É a mesma metáfora que usam para coibir nossa sexualidade — da supervalorização da virgindidade é que saiu o verbo “deflorar” (como se o homem, ao romper o hímen de uma mulher, arrancasse a flor do solo, tomando-a para si e condenando-a – afinal, depois de arrancada da terra, a flor está fadada à morte). É da metáfora da flor, portanto, que vem a ideia de que mulheres sexualmente ativas são “putas”, inferiores, menos respeitáveis.
A delicadeza da flor também é sua fraqueza. Qualquer movimento mais brusco lhe arranca as pétalas. Dizem o mesmo de nós: que somos o “sexo frágil” e que, por isso, devemos ser protegidas. Mas protegidas do quê? De quem? A julgar pelo número de estupros, precisamos de proteção contra os homens. Ah, mas os homens que estupram são psicopatas, dizem. São loucos. Não é com estes homens que nós namoramos e casamos, não é a eles que confiamos a tarefa de nos proteger. Mas, bem, segundo pesquisa Ibope/Instituto Patricia Galvão, 51% dos brasileiros dizem conhecer alguma mulher que é agredida por seu parceiro. No resto do mundo, em 40 a 70 por cento dos assassinatos de mulheres, o autor é o próprio marido ou companheiro. Este tipo de crime também aparece com frequência na mídia. No entanto, são tratados como crimes “passionais” – o que dá a errônea impressão de que homens e mulheres os cometem com a mesma frequência, já que a paixão é algo que acomete ambos os sexos. Tratam os homens autores destes crimes como “românticos” exagerados, príncipes encantados que foram longe demais. No entanto, são as mulheres as neuróticas nos filmes e novelas. São elas que “amam demais”, não os homens.
Mas a rosa também tem espinhos, o que a torna ainda mais simbólica dos mitos que o patriarcado atribuiu às mulheres. Somos ardilosas, traiçoeiras, manipuladoras, castradoras. Nós é que fomos nos meter com a serpente e tiramos o pobre Adão do paraíso (como se Eva lhe tivesse enfiado a maçã goela abaixo, como se ele não a tivesse comido de livre e espontânea vontade). Várias culturas têm a lenda da vagina dentata. Em Hollywood, as mulheres usam a “sedução” para prejudicar os homens e conseguir o que querem. Nos intervalos do canal Sony, os machos são de “respeito” e as mulheres têm “mentes perigosas”. A mensagem subliminar é: “cuidado, meninos, as mulheres são o capeta disfarçado”. E, foi com medo do capeta que a sociedade, ao longo dos séculos, prendeu as mulheres dentro de casa. Como se isso não fosse suficiente, limitaram seus movimentos com espartilhos, sapatos minúsculos (na China), saltos altos. Impediram-na que estudasse, que trabalhasse, que tivesse vida própria. Ela era uma propriedade do pai, depois do marido. Tinha sempre de estar sob a tutela de alguém, senão sua “mente perigosa” causaria coisas terríveis.
Mas dizem que a rosa serve para mostrar que, hoje, nos valorizam.
Hoje, sim. Vivemos num mundo “pós-feminista” afinal. Todas essas discriminações acabaram! As mulheres votam e trabalham! Não há mais nada para conquistar! Será mesmo? Nos últimos anos, as diferenças salariais entre homens e mulheres (que seguem as mesmas profissões) têm crescido no Brasil, em vez de diminuir. Nos centros urbanos, onde a estrutura ocupacional é mais complexa, a disparidade tende a ser pior. Considerando que recebo menos para desempenhar o mesmo serviço, não parece irônico que o meu colega de trabalho me dê os parabéns por ser mulher?
Dizem que a rosa é um sinal de reconhecimento das nossas capacidades.
Mas, no ranking de igualdade política do Fórum Econômico Mundial de 2008, o Brasil está em 100º lugar entre 130 países. As mulheres têm 11% dos cargos ministeriais e 9% dos assentos no Congresso — onde, das 513 cadeiras, apenas 46 são ocupadas por elas. Do total de prefeitos eleitos no ano passado*, apenas 9,08% são mulheres. E nós somos 52% da população.
A rosa também simboliza beleza. Ah, o sexo belo. Mas é só passar em frente a uma banca de revistas para descobrir que é exatamente o contrário. Você nunca está bonita o suficiente, bobinha. Não pode ser feliz enquanto não emagrecer. Não pode envelhecer. Não pode ter celulite (embora até bebês tenham furinhos na bunda). Você só terá valor quando for igual a uma modelo de 18 anos (as modelos têm 17 ou 18 anos até quando a propaganda é de creme rejuvenescedor… ). Mas mesmo ela não é perfeita: tem de ser photoshopada. Sua pele é alterada a ponto de parecer de plástico: ela não tem espinhas nem estrias nem olheiras nem cicatrizes nem hematomas, nenhuma dessas coisas que a gente tem quando vive. Ela sorri, mas não tem linhas ao lado da boca.
Faz cara de brava, mas sua testa não se franze. É magérrima (às vezes, anoréxica), mas não tem nenhum osso saltando. É a beleza impossível, mas você deve persegui-la mesmo assim, se quiser ser “feminina”. Porque, sim, feminilidade é isso: é “se cuidar”. Você não pode relaxar. Não pode se abandonar (em inglês, a expressão usada é exatamente esta: “let yourself go”). Usar uma porrada de cosméticos e fazer plásticas é a maneira (a única maneira, segundo os publicitários) de mostrar a si mesma e aos outros que você se ama.
“Você se ama? Então corrija-se”. Por mais contraditória que pareça, é esta a mensagem.
Todo dia 8 de março, nos dão uma rosa como sinal de respeito. No entanto, a misoginia está em toda parte. Os anúncios e ensaios de moda glamurizam a violência contra a mulher. Nas propagandas de cerveja e programas humorísticos, as mulheres são bundas ambulantes, meros objetos sexuais. A pornografia mainstream (feita pela Hollywood pornô, uma indústira multibilionária) tem cada vez mais cenas de violência, estupro e simulação de atos sexuais feitos contra a vontade da mulher. Nos videogames, ganha pontos quem atropelar prostitutas.
Todo dia 8 de março, volto para casa e vejo um monte de mulheres com rosas vermelhas na mão, no metrô. É um sinal de cavalheirismo, dizem.
Mas, no mesmo metrô, muitas mulheres são encoxadas todos os dias. Tanto que o Rio criou um vagão exclusivo para as mulheres, para que elas fujam de quem as assedia. Pois é, eles não punem os responsáveis. Acham difícil. Preferem isolar as vítimas. Enquanto não combatermos a ideia de que as mulheres que andam sozinhas por aí são “convidativas”, propriedade pública, isso nunca vai deixar de existir. Enquanto acharem que cantar uma mulher na rua é elogio , isso nunca vai deixar de existir. Atualmente, a propaganda da NET mostra um pinguim (?) dizendo “ê lá em casa” para uma enfermeira. Em outro comercial, o russo garoto-propaganda puxa três mulheres para perto de si, para que os telespectadores entendam que o “combo” da NET engloba três serviços. Aparentemente, temos de rir disso. Aparentemente, isso ajuda a vender TV por assinatura. Muito provavelmente, os publicitários criadores desta peça não sabem o que é andar pela rua sem ser interrompida por um completo desconhecido ameaçando “chupá-la todinha”.
Então, dá licença, mas eu dispenso esta rosa. Não preciso dela. Não a aceito. Não me sinto elogiada com ela. Não quero rosas. Eu quero igualdade de salários, mais representação política, mais respeito, menos violência e menos amarras. Eu quero, de fato, ser igual na sociedade. Eu quero, de fato, caminhar em direção a um mundo em que o feminismo não seja mais necessário.
…Enquanto isso não acontecer, meu querido, enfia esta rosa no dignissímo senhor seu cu.
Marjorie Rodrigues
*Texto de 2009.

 Copiado do   Com Texto Livre  em 08/03/2011

segunda-feira, 7 de março de 2011

PERNAMBUCO ESTÁ BOMBANDO. MAS O SALÁRIO DE SEUS PROFESSORES É O PIOR DO BRASIL


    Abaixo o título original da postagem de Paulo Henrique Amorim.




    Folha e Maurício de Nassau descobrem 

    Pernambuco


    Quando a banda passar, a elite separatista não vai perceber


    Num domingo de Carnaval, para que ninguém perceba, a Folha (*) incorpora Mauricio de Nassau e descobre que “Pernambuco vive sua revolução industrial”, na pág. B1.

    “Com um pacote de R$ 46 bi de investimentos, Estado (de Pernambuco) vira locomotiva do Nordeste; PIB cresceu 16% em 2010”

    Os retirantes começam a voltar.

    Em Suape, o complexo industrial e portuário, há cento e vinte empresas já instaladas, outras 30 em construção.

    E mais 20 surgirão até 2014.

    Entre elas a Fiat, que fugiu da Minas do Aécio e de São Paulo do Padim Pade Cerra, para investir ali R$ 3 bilhões.

    Em Suape fica o maior estaleiro do hemisfério sul, o Atlântico Sul, que tem R$ 8 bi de encomendas em carteira (já batizou o João Cândido, da Petrobrás.

    (Note bem: nos tempos da Petrobrax, o Brasil importava navio de Cingapura. Durante a campanha, o Padim Pade Cerra defendeu essa polítia de criar empregos em Cingapura numa entrevista a uma rádio de Recife. Um jenio. Em Recife !)

    A Refinaria Abreu e Lima (R$ 22 bi de investimentos) se associa à Petroquímica Suape (R$ 3,7 bi de investimentos). 

    Daqui a pouco, isso vai explodir com a conclusão de duas pequenas (pequenas, se comparadas com o “cano” do Cerra, que ia de Sergipe ao Ceará) obras: a ferrovia Transnordestina, que vai ligar o interior do Piauí a Suape e ao porto de Pecém, no Ceará; e a transposição das águas do São Francisco.

    A renda per capita de Pernambuco é de quase R$ 10 mil, maior do que a de todo o Nordeste (R$ 7 mil) e ainda inferior à do Brasil (R$ 16 mil).

    Mauricio de Nassau descobriu a Pernambuco de Eduardo Campos antes da Folha (*).

    Quando a elite paulista (separatista, por definição) abrir os olhos, verá que a banda (de pífaros de Caruaru) passou.

    Este ansioso blogueiro, porém, não se deixa surpreender pela Folha (nem ele nem Mauricio de Nassau).


    Saravá !

    RACISMO NO BRASIL. A HISTORIA DE UMA FOTO


    No post “Em três assassinados 2 são negros. Não, não somos  racistas”, o Claudio fez o seguinte comentário: 
    4 de março de 2011
    Caro PHA, você não deu o devido crédito à fotografia que usa para ilustrar o seu comentário. Não por questão de direitos autorais, mas pela história dessa foto.
    A foto “Todos Negros” foi tirada pelo fotógrafo Luiz Mourier em 1982, no Rio de Janeiro. http://ahistoriabemnafoto05.blogspot.com/2007/09/depoimento-5.html
    TERÇA-FEIRA, 18 DE SETEMBRO DE 2007

    Luiz Morier > Todos Negros

    Quando eu fiz esta foto, eu estava passando pela Grajaú-Jacarepaguá, e, passando pela estrada, percebi que havia uma blitz. Parei e fotografei a blitz. E me deparei com esta cena, os negros todos amarrados pelo pescoço. E até dei o título da foto de “Todos Negros”. E logo em seguida eu fui embora, e mais abaixo tinha uma manifestação dos moradores, eu continuei fazendo a seqüência e tal, e fui embora.

    E essa me trouxe meu primeiro prêmio Esso na minha carreira. A sensação que eu tive foi de humilhação. Senti uma cena humilhante. As pessoas humilhadas, pessoas com carteira de trabalho na mão, dava para perceber que não eram bandidos, porque bandidos não usam um tipo de veste assim. É claro que eles se vestem bem melhor que isso. Eram pessoas simples, humildes, todos negros. Senti que era um ato de humilhação. Estavam sendo humilhados ali, carregados pelo pescoço como escravos.

    - Do material que você fez nesse dia, você tinha certeza de que esta foto tinha destaque em relação às outras?

    Não, não tinha certeza, não. Porque a gente… Eu, pelo menos, sempre… Você faz uma foto na hora, aí você só vai ter uma idéia depois que ela foi revelada. Quando eu estava revelando, sim. Aí, que eu vi a foto revelada, eu falei: “pô, essa vai dar o que falar!…” Que isso não é coisa que possa acontecer com o ser humano nos dias de hoje. Ou na época, na década de 80. Mas, até hoje a gente vê humilhação por aí…

    Percebi que houve uma reação grande de todos que viram a foto. Até hoje, até hoje…

    Quem ainda não viu e vê a foto… Já foi usada por várias faculdades, já foi tema… Inclusive foi, até, em 1988, quando a escravidão… Fez cem anos da Lei Áurea, ela foi bem revista e colocada para todos verem que cem anos depois ainda havia esse tipo de cena. (…)

    Eu percebi que tinha uma blitz, mas eu parei porque tinha um camburão parado na pista. Eu fui lá dentro do mato fazer esta foto aqui. Então, eles estavam praticamente escondidos. Quer dizer, eu cacei!… Não estavam expostos assim, na rua. Você pode ver que tem mato lá no fundo, estavam lá no meio do mato, um caminhozinho no meio do mato. Então, quer dizer, era mais escondido, de uma forma… Eles faziam as mutretas, faziam tudo que tinham que fazer, mas, mais escondidos, para que a imprensa não visse mesmo. Agora, eles não estão nem aí… Agora, é tiro pra cá, é tiro pra lá, caiu ali, se tiver fotografa, se não tiver…

    - Nessa foto aí, os PMs tiveram alguma reação de não deixarem você fotografar?

    Ah, a reação foi imediata!… O tenente falou: “recolhe, recolhe, recolhe!”. Quando ele percebeu que eu estava fotografando, ele mandou recolher. Só que quando ele mandou recolher, ele não percebeu que eu… O guarda não percebeu que eu estava fazendo uma foto dele. Eu estava com um grande angular, ele achou que eu estivesse fazendo só os presos. E, no entanto, ele estava enquadrado na foto. (…)

    Tem a importância que tem hoje porque mostra uma autoridade, ali, que devia usar algemas, no mínimo, e usou uma corda, e amarrada no pescoço. Não foi nem nas mãos, foi no pescoço. Quer dizer, um ato escravo mesmo! (…)

    Sim, agora é. Para mim, ela é uma foto histórica. E vai estar sempre no primeiro lugar, pra mim, porque é uma foto que marcou muito esse meu tempo de trabalho.

    Luiz Morier > Diz que foi no Jornal Tribuna da Imprensa que tudo começou. Aos seis anos, acompanhava o pai, Max Morier, repórter esportivo já falecido, e meio que um fundador da Tribuna. Morier começou a carreira de repórter-fotográfico no extinto jornal Última Hora, em 1977. Também teve passagens pelo Globo e trabalhou como freelancer no Estadão. No Jornal do Brasil trabalhou mais de 25 anos. Nos últimos anos tem frilado para várias empresas.


    Em tempo: este ansioso blogueiro teve a honra de dar a foto do Mourier na primeira página do Jornal do Brasil, quando era seu editor.

    Este post é uma singela homenagem a Ali Kamel, autor do livro “Nós não somos racistas”.

    Clique aqui para ler “Secretário de Justiça da Bahia associa livro de Ali Kamel a racismo”.





    Fonte:    Conversa Afiada

    ELIANA TRANCHESI (DO TEMPLO DASLU E DA "MASSA CHEIROSA"): "NUNCA TINHA CONVIVIDO COM ESSE LADO OBSCURO"

    Engraçado como os "áulicos da elite cheirosa" -  quando se veem espremidos no meio da massa fedida [cheiro de povo, para essa elite, deve ser deveras repugnante!] - se espantam com a real situação dos que se comprimem no "andar de baixo" [no dizer de Elio Gaspari]. 

    Enquanto a vida escancara um sorriso de benesses e os mantém nas sacadas de palácios erigidos com o resultado de uma longa política de exclusão social e uma má distribuição de renda, os personagens  "cheirosos" sequer imaginam haver famílias que, em situação de miséria, vão sobrevivendo em meio ao charco que lhes resta. 

    Os "cheirosinhos" vivem tão distantes da crua realidade da ralé [no dizer do "cheirosinho" Reinaldo Azevedo, o "Tio Rei"] que, do alto de suas varandas, não enxergam o transitar cambaleante do "cidadão-comum". Nem mesmo parecem acreditar na existência, por exemplo, de presídios apinhados de "marginais" que trilharam o caminho do crime por uma dessas "peças" pregadas pela vida ou, como querem alguns do "andar de cima", por "exclusivo, pessoal e intransferível" livre-arbírtrio.

    Na cabeça dos que defecam bolo e urinam guaraná - daí, porque fazerem parte da "massa cheirosa" -, não há sistema prisional e muito menos as dificuldades por que passam detentos e detentas que cumprem pena por seus delitos [Sobre as falhas na aplicação da Lei de Execução Penal, leiaaqui.]

    Não, não há sistema penitenciário degradante. Não para os da "massa cheirosa", pois, imunizados contra toda e qualquer possibilidade de respirarem o ar fétido das prisões, os  "cidadãos-vip-cheirosos" repousam suas cabeças em travesseiros confortáveis e sem o fedor de baba. No sono dos "justos" [porque cheirosos], não há  roncos ensurdecedores e, muito menos, os pesadelos das prisões pelo Brasil afora.  Ainda que crimes tenham cometido, esses abastados não têm o que temer. Até que o poder público, com homens públicos de verdade, resolva agir.

    E assim se deu. "De repente, não mais que de repente" [no dizer do saudoso Vinícius de Moraes] a "casa caiu" [no dizer da "massa fedida"] para Eliana Piva de Albuquerque Tranchesi.

    A "cheirosinha" Eliana Tranchesi, dona da Daslu [Templo do consumo de luxo em moda], foi presa sob acusação de ter cometido crimes de formação de quadrilha, falsidade material e ideológica e lesão à ordem tributária [leia mais aqui].

    Condenada a 94 anos e seis meses de prisão, ela foi para a cadeia [sendo libertada logo, logo] e, lá, descobriu que existe um sistema prisional. Mais que isso: sentiu na pele o que a ralé [os do "andar de baixo"] sente na carceragem. 
    "[...] aquilo não serve para ninguém. O sistema penitenciário tem que ser revisto", disse ela, em entrevista a ISTOÉ [leia fragmento abaixo].

    Como assim?! Agora, existe sistema prisional injusto e desumano. Agora, o tal sistema tem que ser revisto. Ora, senhora Eliana Tranchesi! Menos, menos. Menos pelas razões que passo a expor abaxo:

    Primeiro - Enquanto a senhora deslizava em tapetes suntuosos no TemploDaslu, essa discussão nunca esteve na ordem do dia.

    Segundo - Os que ali estão cometeram algum crime por razões diversas [nunca por ter muito dinheiro, pois são da ralé], mas a senhora! A senhora,Eliana Tranchesi, não tinha motivo algum para, juntamente com sua quadrilha, cometer crimes financeiros de forma habitual e recorrente, segundo a Justiça.

    Afirmar, como a senhora o fez, que 
    "Tinha tentado a minha vida inteira ser justa. Se você é desonesto e vive na clandestinidade está no risco. Não era o meu caso." parece piada de malíssimo gosto. Então quer dizer que a senhora era honesta, mas vivia fraudando importações e falsificando documentos - à luz do dia [não na clandestinidade] - sem correr riscos e crendo que tudo estava certo? Que conceito de honestidade é esse, senhora Eliana Tranchesi?

    _________________________

    Fragmentos da entrevista concedida a ISTOÉ e comentários da editoria-geral do 
    Terra Brasilis:
     



    Acha que cometeu crimes e lesou pessoas? 

    Se você soubesse como foi a minha vida, nem me faria essa pergunta. Fui muito correta a minha vida inteira. Mas não adianta falar isso. Não adianta falar o que fiz para os outros. Tenho orgulho do que fiz ao longo de 32 anos de trabalho. Erros todo mundo comete.  
    [Nisso a senhora tem toda a razão] Acho difícil uma pessoa ter uma empresa e não ter cometido erros. [Por que é tão difícil andar de acordo com a lei, senhora Tranchesi?]Acho impossível, principalmente no Brasil, onde as legislações são complicadas e dúbias.  [Complicadas? A lei é para ser cumprida e não burlada por uma suposta "dubiedade", senhora Tranchesi!] Agora a pena realmente é alta demais.

    Mas você não sabia que a sua empresa sonegava impostos? 


    Eu não gostaria de tocar nos pontos do processo. Estou sendo julgada pela Justiça. É a minha vida. Mas todos sabem que o meu envolvimento sempre foi muito maior com a criação e o marketing. Não é que eu não sou dos números. O meu teste vocacional era para matemática. Mas ter me envolvido nessa história toda, isso pode acontecer com qualquer pessoa. 
    [sem comentários]

    O que aprendeu com a experiência na prisão?
       
    Aprendi muito. Outro dia olhava aqui em casa os porta-retratos. Fui feliz em todas as fases da minha vida. É diferente quando você acredita que a sua vida está entregue a Deus. 
    [Agora, parece que Deus surgiu em sua vida. Respeito essa repentina conversão.] Tudo o que me aconteceu serviu para eu crescer.[Que bom! Cresça e aprenda que existe um mundo difícil e injusto aqui no "andar de baixo".] Fui uma menina criada sem dificuldades, casei com o homem que eu amava, tive vida de princesa. [É uma pena a ralé ver isso apenas nos contos de fada.] Estudei fora antes de casar, tive três filhos maravilhosos. Sempre fui rígida comigo e justa com as pessoas. Pensei outro dia: imagina se eu tivesse perdido a memória por 30 anos, abrisse o jornal e visse: “Eliana Tranchesi presa, condenada a 94 anos.” Eu ia falar: isso não pode ter acontecido, devem ter me dopado, me obrigado a fazer alguma coisa que eu jamais faria. Nunca faria algo tão mau que tivesse que ficar 94 anos presa. No entanto, tudo isso aconteceu. Pode imaginar o que foi para mim ser colocada para o Brasil como alguém que fez uma coisa tão errada a ponto de ser condenada a 94 anos de prisão? Tinha tentado a minha vida inteira ser justa. Se você é desonesto e vive na clandestinidade está no risco. Não era o meu caso.

    E o que foi pior na prisão? 
       
    Ver aquele lugar e sentir que aquilo não serve para ninguém. O sistema penitenciário tem que ser revisto. Aquelas vidas todas não estão lá perdidas, sem sentido. 
    [Isso! Elas estão lá para serem ressocializadas, mas isso parece não ocorrer, como a senhora mesma constatou.] Ali você sente um peso de pessoas que não estão sendo amadas. [Que ruim, não é?!? Terrível!!!] O pouquinho que fiquei, li a “Bíblia” com as meninas. Elas tinham televisão nas celas. Então todo mundo queria vir me ver. Uma delas me emprestou uma televisão. Eu agradeci e disse: Eu não quero televisão para ficar me vendo nos noticiários. Que programa pode ser pior? Fiz amizade com elas. Senti que fui importante nas cartas que elas me escreveram depois.

    Manteve contato com algumas delas?
    Mantive. Ajudei uma delas. Minha advogada [Que alívio ter advogado e poder pagar pelos serviços dele, não é senhora Eliana Tranchesi?!] ficou sensibilizada com uma das meninas que estavam comigo, que tinha 23 anos, da África do sul, condenada por tráfico de drogas. Essa menina me contou tudo. E aí você entende por que uma menina de 18 anos faz uma burrada dessas. Ser mula. Mas ela foi abandonada pela mãe com quatro anos. Você começa a entender a vida de cada um. Minha advogada ajudou e ela está em liberdade condicional. Ela está em um abrigo no Butantã. A gente foi criado em redoma mesmo. Nunca tinha convivido com esse lado obscuro. Fiquei muito impressionada. [Pois é... O mundo longe do Templo Daslu é difícil... Muito difícil, senhora Eliana Tranchesi... Sobretudo quando temos que aturar o cinismo e a arrogância dos que habitam o "andar de cima".]


    domingo, 6 de março de 2011

    CIUMEIRA ENTRE BLOGUEIROS DE NOVO??!! NÃO ACREDITO!!

    Ainda me considero um  "newcomer" aqui, comparado com alguns blogs que visito regularmente e que estão, na sua maioria,  na minha lista. Mas mesmo tendo pouco tempo de blogosfera já assisti daqui deste pequeno espaço várias brigas e polêmicas envolvendo blogueiros e blogues ditos progressistas. Quem não se lembra da polêmica que foi a entrevista do Presidente Lula a um grupo de blogueiros?! Durou quase um década para terminar e jorrou uma catarata de sangue virtual. Mais recentemente um outro grupo se estranhou por causa de um termo usado em comentário no blog do Nassif e tome polêmica e tome acusação e tome estrelismo e tome.
    O mais recente motivo de briga de foice foi a visita da nossa Presidenta ao jornal Folha de São Paulo, um dos pais do PIG. Ao ver postagem indignada do Aposentado Invocado com a visita de Dilma eu mesmo tratei de reblogar (veja postagens anteriores). Depois reproduzi mais uma de O Terror do Nordeste onde no título eu também me posicionava dizendo que nada justificava a presença de Dilma no aniversário do jornal. Pouco tempo depois li excelente artigo no Blog do Nassif cujo título era: "O pragmatismo de Dilma e o autoengano da blogosfera.". Ao ler e publicar o texto refleti melhor e mudei de opinião e passei a achar que a atitude de Dilma fora sim acertada. Simples assim. Eis que hoje, não sei quanto tempo depois, me deparo com um "post" no Contexto Livre onde o blogueiro André Lux do  Tudo em Cima volta a tocar no assunto reclamando de estar sendo atacado por outros membros da blogosfera.  Bom, cada caso é um caso. Porém o que eu gostaria de colocar aqui é que esta troca de "amabilidades" entre blogueiro decorre do fato de que algumas pessoas não entenderam ainda que a internet é um espaço livre, sem dono, onde todos podem colocar suas opiniões e cabe a cada um concordar com elas ou não. Uma outra coisa é que a meu ver sobe à cabeça de certas  pessoas o fato de o seu blog ser mais visitados que outros, num espécie de competição pela audiência, coisa, aliás que eles mesmos criticam na velha mídia. Acho que dificilmente esse tipo de polêmica vai acabar na blogosfera até porque ela é feita de pessoas, com seus acertos e erros. Isto é apenas uma constatação, não um julgamento. Agora, é uma pena vermos pessoas que se dizem estar  no mesmo lado do muro se agredindo mutuamente por motivos aparentemente banais.

    by the teacher.

    PRESIDENTA, JOGUE O PIG FORA! LEIA A AGÊNCIA ESTATAL CHINESA



    Wen Jiabao: crescer menos e crescer melhor


    Vamos supor, amigo navegante, que a China adotasse uma democracia (?) à brasileira.

    Uma democracia à brasileira, onde o PiG (*) diz o que quer, ilimitadamente, impunemente.

    Onde a Globo, com 45% da audiência, detém 75% da verba publicitária, impede a atualização do marco regulatório de 1962 e a regulação de três artigos da Constituição de 1988.

    Vamos supor que a China ache isso uma maravilha.

    E o Governo chinês decidisse lançar o 12º Plano Quinquenal, com as seguintes características:http://news.xinhuanet.com/english2010/china/2011-03/05/c_13762942.htm

    - O PIB vai crescer na média 7% ao ano

    (Nos últimos 5 anos, a média anual foi de 11%.)

    - Criar 45 milhões de empregos urbanos

    - Os preços deverão ficar “geralmente estáveis”

    - O desemprego urbano não poderá ultrapassar 5%

    - Aumentar o consumo doméstico

    - Aumentar a expectativa de vida em um ano

    - Construção e renovação de 36 milhões de apartamentos para famílias de baixa renda

    - O salário mínimo não poderá aumentar menos que 13%, na média, por ano

    - Encorajar empresas a lançar ações na Bolsa

    - E atenção, amigo navegante: REFORMAS EM PROFUNDIDADE EM INDUSTRIAS MONOPOLISTAS PARA FACILITAR O ACESSO AO MERCADO E A COMPETIÇÃO !!!

    Que horror, hein, amigo navegante ?

    Se a China fosse uma democracia (sic) como a brasileira, a Globo estava perdida.

    Mas, antes de se afogar na competição e na regulação, a Globo diria:

    “O Pibão bão da China é um desastre !”

    O Casal 45 anunciaria o Pibão bão da China de 2010 ao lado do engarrafamento no Porto de Shangai (por causa das chuvas) e diria que a culpa é do Lula !

    O Ali Kamel diria que não adianta nada crescer muito porque o Pibão bão se tornará um pibinho brevemente.

    Tem mais, na Xinhua, neste sábado, amigo navegante.

    Diz assim a agencia estatal chinesa (que a presidenta deveria ler, em lugar do PiG (*):

    “O Governo deixou muito claro, ao anunciar o 12º. Plano, que, hoje, na China, é mais razoável estruturar economia e elevar o nível de vida das pessoas do que andar em alta velocidade.”

    A urubóloga diria: “Isto é a confissão do fracasso !”.

    Viva a democracia brasileira !


    Paulo Henrique Amorim

    Fonte:   Conversa Afiada

    quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

    ESPAÇO ABERTO AO CONTRADITÓRIO

    REBLOGUEI NESTE ESPAÇO POSTAGENS CONTRÁRIAS À PRESENÇA DE  DILMA ROUSSEFF NA FSP.  REBLOGO AGORA,  TEXTO DANDO DIREITO AO CONTRADITÓRIO.  O QUE VAI NOs  AJUDAR A CRIARMOS UMA OPINIÃO MAIS ACERTADA SOBRE O ASSUNTO.


    O PRAGMATISMO DE DILMA E O AUTOENGANO NA BLOGOSFERA


                             Luiz Carlos Prestes e Olga Benário

    JB Costa

    “Um dos fatos mais marcantes, porque trágico tal qual uma peça do teatro grego, da história política brasileira foi, sem nenhuma dúvida, o caso Olga Benário.

    Em resumo: presa pela ditadura de Getúlio Vargas e esperando um filho de Luís Carlos Prestes, então Secretário geral do OCB e ícone da esquerda brasileira, Olga, judia, foi deportada por conta de um pedido de extradição da Alemanha Nazista. Encarcerada num campo de concentração acabou sendo executada em 1942.

    Bem, qual o destino dos dois personagens principais da tragédia? O que o destino, ou, a face mais pragmática da política, os levou? Nada de ressentimentos, de revanche: em 1950, Prestes subiu no mesmo palanque de Getúlio e o ajudou na retomada do Poder, agora pela via do voto.

    A ida de Dilma à Folha longe está da magnitude do que foi a "rendição" de Prestes a realpolitik. Além dos aspectos institucionais (liturgia do cargo, relacionamentos institucionais etc), houve o sentido político. Os gestos dos que militam nessa arte são, não raro, muito mais reveladores que palavras ou discursos, estes sempre envoltos em tergiversações e simulações.

    A meu ver, a alternativa mais danosa seria a presidenta ter-se negado ao convite. Tal gesto passaria, tanto para a mídia, como para a própria população, espírito de revanche, de vingança. Seria plausível, institucional e politicamente, uma ação dessas de um governante em início de governo? Que ainda busca firmar-se porque ainda à sombra de um político da dimensão do Lula?

    Entendo perfeitamente o desencanto e desalento dos que votaram na coligação vitoriosa. O Eduardo Guimarães [blog “Cidadania.com”], pessoa íntegra e que sempre esteve à frente dos embates por conta dos desvios da mídia, repassa todo o sentimento de frustração pelo gesto da Dilma. Sua integridade moral -inquestionável- o levará certamente a uma leitura menos emotiva e mais contextualizada desse evento. O mesmo pode ocorrer com alguns frequentadores do blog, cuja sinceridade é inquestionável.

    Não tenho a pretensão de querer anular, ou avaliar como ilegítimas ou equivocadas essas visões do "ensarilhar armas". Chamo a atenção apenas para um aspecto: o institucional; detalhe que passa despercebido pelo jornalista Leandro Fortes no seu artigo "Dilma na cova dos leões", na última edição (nº 634) da “Carta Capital”.

    A imprensa é uma instituição. A criação de qualquer acrônimo depreciativo nunca modificará esse fato. E as instituições são um dos resultados do processo civilizatório. Pode-se, aliás, deve-se, colocar em xeque sua credibilidade, sua honestidade, falta de ética, partidarismo, e tudo o mais. Mas nunca a sua própria liberdade e existência, desde que no âmbito das leis vigentes.

    Nesse sentido, como se costuma dizer, as pessoas passam e as instituições ficam. Dilma, pelo viés protocolar, foi prestar reverência à instituição imprensa, não a Tavinho ou Tavão. Pela leitura política, estabelecer uma trégua num embate que só prejuízos acarretam para a sociedade e, de quebra, inserir uma cunha, não por rendição, mas por estratégia junto ao eleitorado mais conservador, cujo nicho maior sempre foi São Paulo.

    A blogosfera não pode deixar-se apossar pelo autoengano do galo chantecler, aquele que pensava que o Sol despontava todas as manhãs pelo seu belo canto. Não vejo amplitude nem força nos blogs para uma eventual influência ativa e incisiva nos rumos da macropolítica. No varejo, talvez.

    Esse é o maior dissabor do autoengano: quando a realidade se impõe, o sentimento é de total desolação. Bate o desespero. Nesses momentos, vale recorrer à leitura do velho Maquiavel que há quinhentos anos nos ensina que a política é da seara dos homens imperfeitos.

    E para o futuro é bom nos resguardar. Novas emoções virão.”

    FONTE: blog do jornalista Luis Nassif (http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-pragmatismo-de-dilma-e-o-auto-engano-na-blogosfera#more) [imagem do google adicionada por este blog].

    terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

    REPRODUZO MAIS UMA: NADA JUSTIFICA A PRESENÇA DE DILMA NA FSP. NADA!

    Dilma na cova dos leões


    Só tenho a lamentar esse comportamento de Dilma.Simplesmente vergonhoso!



    Leandro Fortes


    Na íntegra do discurso de Dilma Rousseff proferido na cerimônia de aniversário de 90 anos da Folha de S.Paulo, disponibilizado na internet pela página do Portal UOL, lê-se, não sem certo espanto: “Estou aqui representando a Presidência da República. Estou aqui como presidente da República”. Das duas uma: ou Dilma abriu mão, em um discurso oficial, de sua batalha pessoal para ser chamada de “presidenta”, ou, mais grave, a transcrição de seu discurso foi alterada para se enquadrar aos ditames do anfitrião, que a chama ostensivamente de “presidente”, muito mais por birra do que por purismo gramatical.

    Caso tenha, de fato, por conta própria, aberto mão do título de “presidenta” que, até então, lhe parecia tão caro, este terá sido, contudo, o menor dos pecados de Dilma Rousseff no regabofe de 90 anos da Folha.

    Explica-se: é a mesma Folha que estampou uma ficha falsa da atual presidenta em sua primeira página, dando início a uma campanha oficial que pretendia estigmatizá-la, às vésperas da campanha eleitoral de 2010, como terrorista, assaltante de banco e assassina. A ela e a seus companheiros de luta, alguns mortos no combate à ditadura.

    Ditadura, aliás, chamada de “ditabranda”, pela mesma Folha.

    Esta mesma Folha que, ainda na campanha de 2010, escalou um colunista para, imbuído de sutileza cavalar, chamá-la, e à atual senadora Marta Suplicy, de vadia e vagabunda.

    Essa mesma Folha, ora homenageada com a presença de Dilma Rousseff.

    Digo o menor dos pecados porque o maior, o mais grave, o inaceitável, não foi o de submeter a Presidência da República a um duvidoso rito de diplomacia de uma malfadada estratégia de real politik. O pecado capital de Dilma foi ter, quase que de maneira singela, corroborado com a falsa retórica da velha mídia sobre liberdade de imprensa e de expressão. Em noite de gala da rua Barão de Limeira, a presidenta usou como seu o discurso distorcido sobre dois temas distintos transformados, deliberadamente, em um só para, justamente, não ser uma coisa nem outra. Uma manipulação conceitual bolada como estratégia de defesa e ataque prévios à possível disposição do governo em rever as leis e normas que transformaram o Brasil num país dominado por barões de mídia dispostos, quando necessário, a apelar para o golpismo editorial puro e simples.

    A liberdade de expressão que garantiu o surgimento de uma blogosfera crítica e atuante durante a guerra eleitoral de 2010 nada tem a ver com aquela outra, defendida pela Associação Nacional dos Jornais, comandada por uma executiva da Folha de S.Paulo. São posições, na verdade, antagônicas. A Dilma, é bom lembrar, a Folha jamais pediu desculpas (nem a seus próprios leitores, diga-se de passagem) por ter ostentado uma ficha falsa fabricada por sites de extrema-direita e vendida, nas bancas, como produto oficial do DOPS. Jamais.

    Ao comparecer ao aniversário da Folha, a quem, imagina-se, deve ter processado por conta da ficha falsa, Dilma se fez acompanhar de um séquito no qual se incluiu o ministro da Justiça. Fez, assim, uma concessão que está no cerne das muitas desgraças recentes da história política brasileira, baseada na arte de beijar a mão do algoz na esperança, tão vã como previsível, de que esta não irá outra vez se levantar contra ela. Ledo engano. Estão a preparar-lhe uma outra surra, desta feita, e sempre por ironia, com o chicote da liberdade de imprensa, de expressão, cada vez mais a tomar do patriotismo o status de último refúgio dos canalhas.

    Dilma foi torturada em um cárcere da ditadura, esta mesma, ditabranda, que usufruiu de veículos da Folha para transporte e remoção de prisioneiros políticos – acusação feita pela jornalista Beatriz Kushnir no livro “Cães de guarda” (Editora Boitempo), nunca refutada pelos donos do jornal.

    A presidenta conhece a verdadeira natureza dos agressores. Deveria saber, portanto, da proverbial inutilidade de se colocar civilizadamente entre eles.


    Leandro Fortes


    Leandro Fortes é jornalista, professor e escritor, autor dos livros Jornalismo Investigativo, Cayman: o dossiê do medo e Fragmentos da Grande Guerra, entre outros. Mantém um blog chamado Brasília eu Vi.

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