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domingo, 7 de outubro de 2012

PAULO MOREIRA LEITE, NA ÉPOCA, SOBRE GENOINO: "NÃO É UM MELODRAMA, MAS UMA TRAGÉDIA"



Saiu no site da Época:

São paulo, 5/10/2012


Paulo Moreira Leite
colunista da revista epoca.


Nossos crocodilos ficaram sentimentais. Em toda parte vejo lágrimas que acompanham os votos que condenam José Genoino.

Na imprensa, em conversas com amigos, ouço o comentário, em tom de solidariedade. Parece consciência pesada, em alguns casos.

Não estamos diante de um melodrama mas de uma tragédia.

Genoino está sendo condenado num julgamento marcado por incongruências, denuncias incompletas e presunções de culpa que começam a incomodar estudiosos e acadêmicos. Foi isso que  explicou Margarida Lacombe, professora de Direito da UFRJ, em comentário na Globo News. Sem perder suavidade na voz,  a professora  falou sobre necessidade de provas contundentes quando se pretende privar a liberdade de uma pessoa. Não falou de casos concretos, não criticou. Fez o melhor: informou.  Lembrou como esse ponto – a liberdade – é importante.

Vamos começar.

O STF que está condenando Genoino absolveu Fernando Collor com o argumento de “falta de provas.”

É o mesmo STF que, em tempos muito mais recentes, impediu que o país apurasse, investigasse e punisse a tortura ocorrida no regime militar.

Então ficamos assim. José Genoino, vítima da tortura que o STF impediu que fosse apurada, será condenado por corrupção, ao contrário de Fernando Collor.

Parece o Samba do Crioulo Doido do Stanislaw Ponte Preta. É. Mas não é o texto. E a “realidade brasileira”, como se dizia no tempo em que a polícia política perseguia militantes como Genoino.

Não há provas materiais contra Genoino e tudo que se pode alegar contra ele é menos consistente do que se poderia alegar contra Collor. Mas as provas da  tortura são abundantes. Estão nos arquivos do Brasil Nunca Mais e em outros trabalhos. Foram arrancadas na dor, no sofrimento, na porrada, no sangue e, algumas vezes, na morte. Em plena ditadura, 1918 vítimas da tortura deixaram registros dessa violência nos arquivos da Justiça Militar.  Nenhuma foi apurada e, se depender da decisão do STF, nunca será.

Collor foi beneficiado porque  provas muito contundentes  contra ele foram anuladas. Considerou-se, na época,  que a privacidade do tesoureiro PC Farias havia sido violada quando a Polícia Federal quebrou o sigilo de um computador que servia ao esquema. Essa decisão – em nome da privacidade — salvou Collor.

Você pode dizer que os tempos eram outros e que agora não se aceita mais tanta impunidade. Aceita-se. Basta lembrar que, na mesma época, o mensalão do PSDB-MG virou fumaça na Justiça Comum. E quando Márcio Thomaz Bastos tentou mudar o julgamento do mensalão federal, alegou-se que era no STF que os crimes graves são punidos.

Vamos continuar.

Genoino está sendo condenado  porque “não é plausível” que não soubesse do esquema. “Plausível”, informa o Houaiss,  é sinônimo de aceitável, razoável. Olha o tamanho da subjetividade, da incerteza.

Isso porque ele assinou o pedido de empréstimo de R$ 3,5 milhões para o Banco Rural e por dez vezes refez o pedido.  Não é plausível imaginar que um presidente do PT fizesse tudo isso sem saber de nada, acreditam três ministros do Supremo.

Mas fatos que são líquidos e certos não comoveram a acusação com a mesma clareza.

O empresário Daniel Dantas deu R$ 3,5 milhões para amolecer Delúbio Soares e Marcos Valério e cair nas graças do esquema.  Não foram R$ 3,5 milhões subjetivos mas inteiramente objetivos.

Um pouco mais tarde, seu braço direito Carla Cicco assinou um contrato de R$ 50 milhões com as agências de Marcos Valério para transformar a turma do PT em geléia. Chegaram tarde. Depois de pagar a primeira prestação, a casa caiu e eles suspenderam o pagamento.

Como não gosto de pré-julgar, não acho que Daniel Dantas seja culpado por antecipação. Não acho mesmo. Vai ver que estava tudo lá, bonitinho. Também podia ser ajuda para o Fome Zero rsrsrsrsrs

Ou quem sabe fosse tudo para Valubio.

Mas não teria sido melhor que ele fosse ouvido no tribunal, para mostrar sua inocência?

Não teria sido uma forma de mostrar que a Justiça é cega?

Mas ela não foi.

O esquema privado do mensalão, informa a CPMI, chegou a R$ 200 milhões. Quantos empresários foram lá, dar explicações? Nenhum.

Alguém acha plausível, aceitável, razoável, que fossem inocentados por antecipação?

Não há nada “plausível” que se possa fazer com R$ 200 milhões?

Só a Telemig, que pertencia ao grupo Opportunity, de Daniel Dantas, entregou mais dinheiro às agências de Valério do que o Visanet, que jogou o petista Henrique Pizzolato na vala dos condenados logo nos primeiros dias.

O que é plausível, neste caso?

Nós sabemos – e ninguém duvida disso – que Genoino fazia política o tempo inteiro. Fez isso a vida toda, com tamanha inquietação que,  numa fase andou pela guerrilha do Araguaia e, em outra, ficou tão moderado que parecia que ia preencher ficha de ingresso no PSDB.

Chegou a liderar um partido revolucionário à esquerda do PC do B e depois integrou as correntes mais à direita do PT.

Então vamos lá. É plausível imaginar que Genoino tenha ido atrás de recursos de campanha? Sim. É plausível e até natural. Basta deixar de ser hipócrita para compreender. Política se faz com quadros, imprensa, propaganda, funcionários. Isso custa dinheiro.

Isso fez dele um dirigente que subornava  adversários para convencê-los a mudar de lado, como quer a acusação? Não.

Eu não acho plausível, nem aceitável nem razoável. Duvido inteiramente, aliás.

E se eu tiver errado, quero que me provem – de forma clara, contundente. Sem essas suposições, sem um quebra-cabeças que joga com a liberdade humana.

Sem fogueira de tantas vaidades.

Não chore por nós Genoino.

Alegou-se que a tortura não poderia ser apurada para preservar a transicão democrática.

A democracia avançou, as conquistas foram imensas. Mas os perseguidos, no fundo, bem no fundo, são os mesmos.

Não é um melodrama. É uma tragédia.


Fonte:  Conversa Afiada

domingo, 4 de setembro de 2011

MALUF E FHC: MOVIMENTAÇÃO DA DIREITA CONTRA AS MUDANÇAS



 

Duas celebrações de aniversários de lideranças políticas, tirante os aspectos de cordialidade nas relações intersubjetivas, de sociabilidade e folclóricos, são ilustrativas de um comportamento típico da vida política brasileira, que se acentua toda vez que ocorre uma transição: a movimentação das forças de direita e centro-direita para garantir posições-chave no poder político.

Referimo-nos às comemorações dos aniversários natalícios do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em junho último, e neste final de semana, do deputado federal Paulo Maluf.


No aniversário do ex-mandatário, até a presidente Dilma Rousseff exagerou no tom, fazendo-lhe elogios imerecidos. FHC fez todos os esforços para aparecer como grande líder e figura de proa da intelectualidade nacional. Extremamente vaidoso e com desmedidas ambições, ainda pretende liderar a oposição e arregimentar forças em torno do seu fracassado PSDB.

No aniversário de Maluf, comemorado no último sábado (3), os principais líderes da política paulista - o governador Alckmin, o vice-presidente da República, Michel Temer, e o prefeito da capital, Gilberto Kassab, procuraram ressaltar o papel do ex-alcaide e cortejá-lo tendo em vista capturar os votos da direita nas próximas eleições municipais e em eleições futuras. Este, oportunista como sempre, procura capitalizar os elogios e se posicionar “na crista da onda”.

Cada qual com sua trajetória e estilo, FHC e Maluf representam o que há de mais reacionário na vida política nacional. O ex-presidente da República liderou uma coalizão de forças de direita e centro-direita, da qual participou o próprio Maluf. Com tal aliança, realizou um governo conservador e neoliberal, um dos piores de toda a história nacional. Entreguismo, fisiologismo nas relações com o Congresso, corrupção desbragada, personalismo, repressão aos movimentos sociais foram as características do seu governo.

Já o ex-prefeito paulistano é filhote da ditadura, sob cuja sombra de corrupção e violência prosperou em negócios escusos e ascendeu na escala do poder. Lidera uma corrente política de direita, hoje em decadência, mas que ainda atua como força de reserva para aventuras golpistas, se eventualmente a ocasião se apresentar. Maluf é porta-voz de um discurso anticomunista, antipetista, antiprogressista, com tintas de misoginia e patriarcalismo.

As homenagens e paparicos em relação a essas duas figuras nefastas indica a movimentação dos grandes partidos das classes dominantes para consolidar posições conservadoras no quadro político e, desde a oposição como de dentro do governo, exercer freio sobre qualquer ímpeto tansformador. Não deixa de ser, no plano simbólico, uma jogada para pressionar, pela direita, a sucessão presidencial de 2014.

O Brasil precisa urgentemente de reformas democráticas estruturais, o que só será possível com a formação de um coerente e consistente núcleo de esquerda no governo e fora dele e com a mobilização do povo em torno de uma plataforma de lutas. A concertação ou a polarização entre forças e lideranças de direita e centro-direita não terá outro resultado senão a inflexão do curso político no sentido conservador. São movimentações estranhas e contrárias aos esforços para a união entre as forças de esquerda e do movimento popular.Portal Vermelho
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