segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O SALTO DO GATO MOURISCO

  do Gilson Sampaio.

Sanguessugado do redecastorphoto
*José Flávio Abelha
Resumindo, pode ser “O Pulo do Gato”, mas me contaram assim.
Uma onça pintada, musculosa, fornida, poderosa, era comadre de um magrelo, desapetrechado, mas arisco bichano conhecido como “o gato mourisco”. O objetivo da comadre era liquidar com aquele animal estrovengo e, para atingir o seu objetivo, pediu-lhe umas aulas de saltos que só ele sabia dar. E o compadre, fingindo-se de inocente, foi ensinando as artes felinas.
Quando a fornida comadre sentiu-se senhora das artes marciais, apostou uma corrida com o compadre. Uns quinhentos metros de pista cuja chegada era um muro muito alto. E dispararam numa corrida diabólica. Aproximando-se do muro e sentindo-se acuado, sem saída, liquidado, o compadre imprimiu velocidade, subiu no muro e deu um salto mortal, caindo atrás da comadre que, muito espantada, reclamou em altos brados dizendo que não lhe fora ensinado aquele salto. E o compadre bichano simplesmente lhe disse que aquele era o seu segredo. “Este, comadre, não lhe posso ensinar, é o salto do gato mourisco, se quiser, o pulo do gato”.
Há no DNA de uma camada da elite brasileira traços dissimulados, latentes, de uma eterna oposição, não essa oposição que se transforma em situação quando derrota quem está no comando, no poder. Essa oposição nunca se transmuda. Ainda que no comando, sendo governante, ela continua oposição. Oposição à oposição e oposição aos valores mais caros do país, obtidos com grandes sacrifícios, de grande valor e estima, oposição aos que defendem esses valores nacionais, sejam materiais ou imateriais. Oposição em si, visto que é do seu DNA.
Essa oposição é a onça pintada. Musculosa a poder de obséquios nacionais e internacionais sob aquele ensinamento dos sobrinhos do Tio Sam: não existe almoço de graça. É o que temos visto nos últimos lustros.
A oposição avalizada pelo embaixador dos EUA Adolf Berle derrubou o “ditador” Getúlio Vargas, deixando no poder dezenas de “ditadores”, na América Latina e na Europa.
Era a onça pintada dando o bote, era a oposição teúda e manteúda contra o Gato Mourisco.
Durou pouco, o bichano/povo deu o salto mourisco e Vargas voltou nos braços do povo, perdão, dos gatos. Mas a oposição/onça pintada não se emendou e colocou nas mãos de Vargas a arma assassina. Mais uma vez enganou-se a onça pois o seu filhote perdeu as eleições para o gatão Juscelino. Com Jango, o mesmo bote com a ajuda maciça das forças navais dos EUA, inclusive belonaves moderníssimas, a chamada “Operação Brother Sam”. Anos depois, milhões de gatos saem às ruas e num miado unissonante, as onças pintadas saem mansinhas, não sem antes ficar provado que golpes de estado e as revoluções são filhos de oposições, todos antropofágicos.
Não é só de botes violentos que esse tipo de oposição se manifesta. Sempre ajudada pelas “forças ocultas” (leiam Quem pagou a conta, A CIA na guerra fria da cultura, de Frances Stonor Saunders, Ed.Record/Rio/2008) a oposição assume o poder e, por força do seu DNA, é oposição ao país, privatizando quase tudo, entregando o que pode e não pode aos que “pagaram a conta”, até que surge, de novo, o Gato Mourisco com o seu secreto pulo e coloca o país entre as nações mais respeitadas do mundo.
O que se deu agora.
Uma pessoa amiga escreveu-me expondo o seu medo de uma arbitrariedade da onça pintada que ronda a casa do Gato Mourisco. Tranqüilizei-a contando a história do salto do bichano e relembrando que em menos de um século, a oposição tirou do governo vários presidentes, mas os mesmos voltaram por força dos miados dos gatos mouriscos.
Quem não se lembra de Perón e dos descamisados colocando-o novamente no poder? De Vargas? Do quase golpeO SALTO DO GATO MOURISCO
Sanguessugado do redecastorphoto
*José Flávio Abelha
Resumindo, pode ser “O Pulo do Gato”, mas me contaram assim.
Uma onça pintada, musculosa, fornida, poderosa, era comadre de um magrelo, desapetrechado, mas arisco bichano conhecido como “o gato mourisco”. O objetivo da comadre era liquidar com aquele animal estrovengo e, para atingir o seu objetivo, pediu-lhe umas aulas de saltos que só ele sabia dar. E o compadre, fingindo-se de inocente, foi ensinando as artes felinas.
Quando a fornida comadre sentiu-se senhora das artes marciais, apostou uma corrida com o compadre. Uns quinhentos metros de pista cuja chegada era um muro muito alto. E dispararam numa corrida diabólica. Aproximando-se do muro e sentindo-se acuado, sem saída, liquidado, o compadre imprimiu velocidade, subiu no muro e deu um salto mortal, caindo atrás da comadre que, muito espantada, reclamou em altos brados dizendo que não lhe fora ensinado aquele salto. E o compadre bichano simplesmente lhe disse que aquele era o seu segredo. “Este, comadre, não lhe posso ensinar, é o salto do gato mourisco, se quiser, o pulo do gato”.
Há no DNA de uma camada da elite brasileira traços dissimulados, latentes, de uma eterna oposição, não essa oposição que se transforma em situação quando derrota quem está no comando, no poder. Essa oposição nunca se transmuda. Ainda que no comando, sendo governante, ela continua oposição. Oposição à oposição e oposição aos valores mais caros do país, obtidos com grandes sacrifícios, de grande valor e estima, oposição aos que defendem esses valores nacionais, sejam materiais ou imateriais. Oposição em si, visto que é do seu DNA.
Essa oposição é a onça pintada. Musculosa a poder de obséquios nacionais e internacionais sob aquele ensinamento dos sobrinhos do Tio Sam: não existe almoço de graça. É o que temos visto nos últimos lustros.
A oposição avalizada pelo embaixador dos EUA Adolf Berle derrubou o “ditador” Getúlio Vargas, deixando no poder dezenas de “ditadores”, na América Latina e na Europa.
Era a onça pintada dando o bote, era a oposição teúda e manteúda contra o Gato Mourisco.
Durou pouco, o bichano/povo deu o salto mourisco e Vargas voltou nos braços do povo, perdão, dos gatos. Mas a oposição/onça pintada não se emendou e colocou nas mãos de Vargas a arma assassina. Mais uma vez enganou-se a onça pois o seu filhote perdeu as eleições para o gatão Juscelino. Com Jango, o mesmo bote com a ajuda maciça das forças navais dos EUA, inclusive belonaves moderníssimas, a chamada “Operação Brother Sam”. Anos depois, milhões de gatos saem às ruas e num miado unissonante, as onças pintadas saem mansinhas, não sem antes ficar provado que golpes de estado e as revoluções são filhos de oposições, todos antropofágicos.
Não é só de botes violentos que esse tipo de oposição se manifesta. Sempre ajudada pelas “forças ocultas” (leiam Quem pagou a conta, A CIA na guerra fria da cultura, de Frances Stonor Saunders, Ed.Record/Rio/2008) a oposição assume o poder e, por força do seu DNA, é oposição ao país, privatizando quase tudo, entregando o que pode e não pode aos que “pagaram a conta”, até que surge, de novo, o Gato Mourisco com o seu secreto pulo e coloca o país entre as nações mais respeitadas do mundo.
O que se deu agora.
Uma pessoa amiga escreveu-me expondo o seu medo de uma arbitrariedade da onça pintada que ronda a casa do Gato Mourisco. Tranqüilizei-a contando a história do salto do bichano e relembrando que em menos de um século, a oposição tirou do governo vários presidentes, mas os mesmos voltaram por força dos miados dos gatos mouriscos.
Quem não se lembra de Perón e dos descamisados colocando-o novamente no poder? De Vargas? Do quase golpe contra Juscelino não fosse a pronta ação, vigorosa e legalista do General Lott? Da tentativa de impedimento de Jango e a violenta reação de Brizolla com a “Cadeia da Legalidade”? Ainda agora do presidente Chávez, da Venezuela, retirado da presidência, preso em um navio e recolocado novamente na presidência?
Com o gato mourisco não se brinca. Temos agora uma GATA enfrentando a velha oposição e o seu DNA golpista. Ela e o gato barbudo sabem muito bem dar o salto do gato mourisco.
Se a oposição, já a esta altura desesperada, despencando nas pesquisas, sem a promessa de um projeto factível, sem argumentos sólidos, tentar golpear a vontade dos milhões de gatos, vai ser ensurdecedor o miado nacional e internacional.
Não vai haver golpe, prezada amiga. Tudo indica que a GATA Dilma leva no primeiro turno. E se levar, ta levado!
A oposição não é TÃO irresponsável a ponto de colocar em risco a segurança física das nossas instituições ainda em funcionamento pleno e democrático, os três poderes, seus prédios e seus ocupantes, para não falar no chamado 4º poder, a mídia, toda ela apoiando uma oposição sem lenço e sem documento.
Nossa oposição tem no DNA o germe da oposição pela oposição, a oposição até a si mesma, mas não tem o microrganismo patogênico da loucura.
*Mineiro, autor de A MINEIRICE e outros livretes, reside na Restinga de Piratininga/Niterói, onde é Inspector of Ecology da empresa Soares Marinho Ltd. Quando o serviço permite o autor fica na janela vendo a banda passar contra Juscelino não fosse a pronta ação, vigorosa e legalista do General Lott? Da tentativa de impedimento de Jango e a violenta reação de Brizolla com a “Cadeia da Legalidade”? Ainda agora do presidente Chávez, da Venezuela, retirado da presidência, preso em um navio e recolocado novamente na presidência?
Com o gato mourisco não se brinca. Temos agora uma GATA enfrentando a velha oposição e o seu DNA golpista. Ela e o gato barbudo sabem muito bem dar o salto do gato mourisco.
Se a oposição, já a esta altura desesperada, despencando nas pesquisas, sem a promessa de um projeto factível, sem argumentos sólidos, tentar golpear a vontade dos milhões de gatos, vai ser ensurdecedor o miado nacional e internacional.
Não vai haver golpe, prezada amiga. Tudo indica que a GATA Dilma leva no primeiro turno. E se levar, ta levado!
A oposição não é TÃO irresponsável a ponto de colocar em risco a segurança física das nossas instituições ainda em funcionamento pleno e democrático, os três poderes, seus prédios e seus ocupantes, para não falar no chamado 4º poder, a mídia, toda ela apoiando uma oposição sem lenço e sem documento.
Nossa oposição tem no DNA o germe da oposição pela oposição, a oposição até a si mesma, mas não tem o microrganismo patogênico da loucura.
*Mineiro, autor de A MINEIRICE e outros livretes, reside na Restinga de Piratininga/Niterói, onde é Inspector of Ecology da empresa Soares Marinho Ltd. Quando o serviço permite o autor fica na janela vendo a banda passar

PORQUE VOTAREI EM DILMA ROUSSEFF



Do blog do Favre


Leiam este texto de Celso Barros, Rio de Janeiro-RJ, ele é mestre em Sociologia pela Unicamp e doutor em Sociologia pela Oxford. Considerei interessante a argumentação, mesmo se não concordo com algumas considerações. No Blog: napraticaateoriaeoutra.org você encontra muito mais infomação. O texto me foi enviado por Mônica Banderas do blog Polimorfo Sintético.

Celso Barros – Polimorfo Sintético

Os três principais candidatos nessa eleição presidencial são muito bons. A terceira colocada deve ser Marina Silva, e Marina Silva seria melhor presidente que 90% dos presidentes do mundo. Levando em conta só os competitivos, nos últimos dezesseis anos só Garotinho (que a The Economist traduzia como “Little Kid”) avacalhou nosso currículo, onde, na minha modesta opinião, devemos ter orgulho de ostentar Lula e FHC.
Mas é preciso escolher, e, no que se segue, argumentarei que a melhor opção para o Brasil no momento é uma ex-guerrilheira nerd.
1.
Um bom governo, na minha opinião, deve (a) ser democrático, (b) não avacalhar a estabilidade econômica, e (c) combater a pobreza e a desigualdade. Por esses critérios, o governo Lula foi indiscutivelmente bom.
O governo Lula, tanto quanto o governo FHC, foi um governo democrático. Quem lê jornal no Brasil não apenas percebe que é permitido falar mal do governo, mas pode mesmo ser desculpado por suspeitar que falar mal do governo é obrigatório por lei. Os partidos de oposição atuam com plena liberdade, os movimentos sociais, idem, e, aliás, eu também. O Olavo de Carvalho se mandou para os Estados Unidos, dizem que com medo de ser perseguido politicamente, mas, se tiver sido por isso, foi só frescura. De qualquer modo, nunca antes nesse país exportamos tantos Olavos de Carvalho.
A economia foi muito bem gerida durante a Era Lula, a despeito do que falam muitos petistas (talvez preocupados com a falta de oposição competente). Companheiros, deixemos de falar besteira: a política econômica foi um sucesso. Mantivemos o bom sistema de metas de inflação implantado por Armínio Fraga no (bom) segundo governo FHC, e acrescentamos a isso: uma preocupação quase obsessiva por acumular reservas internacionais, a excelente ideia de comprar de volta nossa dívida em dólar, e medidas de incentivo fiscal quando foi necessário. A dívida como proporção do PIB caiu consideravelmente, e só voltou a subir quando foi necessário combater a crise. Certamente voltará a cair já agora.
Por essas e outras, fomos os últimos a entrar e os primeiros a sair da maior crise econômica desde 1929. Os tucanos se consideravam uma espécie de Keynes coletivo por terem sobrevivido à crise do México. Com muito menos custo, sobrevivemos à crise dos EUA. E isso se deu porque a economia durante a Era Lula foi muito mais bem administrada do que durante o primeiro governo FHC. No segundo governo FHC, aí sim, a economia foi bem gerida, e Lula fez muito bem em copiar seus métodos de gestão.
E, na área social, o Lula realmente se destaca na história brasileira, e na conjuntura econômica mundial. FHC não merece nada além de parabéns por ter copiado o Bolsa-Escola do governo petista do Distrito Federal (cujo governador havia idealizado o programa ainda na década de 80), e o PT merece críticas por ter atrasado sua adoção insistindo no confuso “Fome Zero” por tempo demais; mas, uma vez re-estabelecida a sanidade, o programa foi implementado com imenso sucesso, e, associado à política de recuperação do salário mínimo, e à boa gestão da economia, geraram resultados que não estavam nas projeções do mais otimista dos petistas em 2002. Para ser honesto, eu sempre votei no Lula, mas nunca achei que fosse dar tão certo.
A pobreza caiu algo como 43%. Vou dizer com palavras, para não dizerem que sou cabeça-de-planilha: a pobreza no Brasil caiu quase pela metade. Rodrigo Maia, escreva essa frase no quadro cem vezes. Mais de 30 milhões de pessoas (meia França, não muito menos que uma Argentina inteira) subiram às classes ABC. Cortamos a pobreza extrema pela metade (mas ainda é, claro, vergonhoso que tenhamos pobreza extrema). A desigualdade de renda caiu consideravelmente: a renda dos 10% mais ricos cresceu à taxa de 3 e poucos % na Era Lula, enquanto a renda dos mais pobres cresceu mais ou menos 10% ao ano, as famosas taxas chinesas. E tem uns manés que acham que os pobres votam no Lula porque são ignorantes ou mais tolerantes com a corrupção. Dê essas taxas à nossa elite e o Leblon inteiro tatua a cara do Zé Dirceu.
Não é à toa que o economista Marcelo Neri, um dos mais respeitados estudiosos da pobreza no Brasil, fala no período de 2003-2010 como “A Pequena Grande Década”. Tanto quanto sei, Neri não é petista.
Por outro lado, há algumas semanas, o sociólogo Demétrio Magnoli escreveu um balanço crítico do governo Lula, que considera um desastre. O artigo praticamente não tem nenhum número. I rest my case.
2.
Seria idiota dizer que isso não é, em nenhum grau, motivo para votar na Dilma. Dilma participou ativamente disso tudo, e, no mínimo, apoiou isso tudo. Marina Silva, é verdade, apoiou quase tudo isso. José Serra não o fez, e muitos de seus simpatizantes continuam convictos de que os últimos oito anos, em que a renda dos brasileiros mais pobres cresceu no ritmo da economia chinesa, foi uma era das trevas da qual a nossa elite bem pensante (hehehe) acordará em breve, chorando de felicidade porque era só um pesadelo.
Mas, até aí, eu considero que a Era FHC também foi boa para o país, por outros motivos, e mesmo assim foi bom que Lula fosse eleito em 2002 (como irrefutavelmente provado acima). Por que não seria esse o caso, agora?
Em primeiro lugar, porque não acho que será bom para o Brasil se o governo Lula tiver sido só um intervalo. Se Serra ganhar a eleição, eis o que se tornará a versão oficial sobre esse período: uns caras com diploma governavam muito bem o Brasil por muitas décadas, aí surgiu um paraíba muito carismático que acabou % ganhando a eleição, mas não fez nada demais, por isso eventualmente a turma do diploma retomou o controle da coisa toda. Coloquei um sinal de porcentagem no meio da frase para que ela tivesse pelo menos um erro que não fosse também papo furado.
É importante compreender que os novos atores que compõem o PT vieram para ficar, pois são sócios-fundadores de nossa democracia, e que, de agora em diante, o Brasil é um país com uma esquerda que sabe ser governo. Isso quer dizer que agora a direita, para vencer eleições, precisa apresentar boas candidaturas (de preferência sem roubar nossos sociólogos, ou economistas heterodoxos) e, o mais crucial de tudo, apresentar propostas para os mais pobres, que acabam de descobrir que podem melhorar imensamente suas vidas com o voto. A direita brasileira ainda não fez esse trabalho: continua pensando como se fosse um direito natural seu governar o país, e esperando que algum movimento legitimista re-estabeleça a ordem nesta budega.
Enquanto a justiça eleitoral não fizer o voto do Reinaldo Azevedo ter peso 50 milhões, a estratégia de fingir que o governo Lula não desmoralizou os anteriores, diminuindo a pobreza sem desestabilizar a economia, não vai ganhar eleição. Enquanto não tiver um projeto para o país (o que, diga-se, o Plano Real foi), a oposição não merece voltar ao governo. Como o PT dos anos 90, por exemplo, não merecia ganhar a presidência, pois seu programa era o que, no jargão sociológico, era conhecido como “nhenhenhém”. O PT venceu quando reconheceu que o papo agora era outro, e era preciso partir das conquistas já alcançadas. Não há sinal que consciência semelhante exista na oposição como bloco político, embora, sem dúvida, o candidato Serra o tenha compreendido.
3.
Mas esse tampouco é o melhor motivo para se votar na Dilma. O melhor motivo para se votar na Dilma é a Dilma.
Dilma tem uma trajetória política muito singular, como, aliás, tinham FHC e Lula. Quem tiver lido seu perfil recente na revista Piauí pode notar que há tantos fatos interessantes na sua vida que o jornalista mal teve espaço para falar dela, como pessoa. Dilma foi guerrilheira, foi torturada, e, durante a democratização, entrou para o PDT. Quando visitou, recentemente, o túmulo de Tancredo, a turma de sempre reclamou que o PT não o havia apoiado no Colégio Eleitoral. Bem, Dilma, como o PDT, apoiou Tancredo. Eventualmente, foi parar no PT, onde cresceu fulminantemente, e foi beneficiada pela decisão da oposição de queimar um por um dos quadros petistas mais famosos, algo pelo que, suspeito, já começam agora a se arrepender. Estariam pior agora se o candidato do Lula fosse, digamos, o Dirceu?
Tem gente que, com temor ou esperança, acha que Dilma mudará o rumo da economia. Eu posso estar errado, mas, baseado no que vi até agora, acho o seguinte: Dilma está singularmente posicionada para fazer com que, sob essa mesma política econômica, e com o mesmo compromisso com a justiça social, o país comece a crescer bem mais rápido do que cresceu nos últimos dezesseis anos.
Eu gosto de dizer o seguinte sobre política econômica: é verdade, o Banco Central desacelera o crescimento quando mantém os juros altos (e segura a inflação). Mas, a essa altura, o crescimento econômico já levou uma surra; antes de chegar no Banco Central, o carro do crescimento já tomou batidas da nossa falta de política de inovação, da baixíssima capacidade de investimento do Estado, da pobreza (que diminuiu, mas, para nossa vergonha, ainda está aí), do nosso abissal nível de qualificação educacional, dos entraves inacreditáveis para se abrir ou fechar um negócio, dos problemas gravíssimos da nossa urbanização. Essa desacelerada que o Banco Central dá é porque, depois de tomar tanta batida, ou nosso carro desacelera ou ele desmonta na pista.
Nossa visão deve ser a seguinte: queremos ter produção tecnológica como a Índia, mas com muito mais preocupação com a justiça social, e queremos ter o crescimento da China, mas com a mais absoluta democracia e com as garantias ambientais necessárias. Se esses limites nos atrasarem um pouco, paciência, somos, em nossos melhores momentos, um país que leva essas coisas a sério. O que não é admissível é que qualquer coisa que não nossos princípios atrase nosso progresso.
Muita gente diz que Lula entregou a candidatura à Dilma de mão-beijada, mas, aproveito para advertir, muita calma nessa hora, meu povo. Lula também lhe entregou uma roubada incrível, que foi também um teste. Quando Dilma foi colocada na direção do PAC, experimentou em primeira mão o quão ineficiente é nosso Estado como indutor do investimento: uma legião de entraves burocráticos, pressões políticas e uma história de más prioridades tornaram nosso Estado incapaz de investir e de oferecer infra-estrutura (tanto física quanto legal quanto humana) para o investimento privado.
A beleza da coisa é que Dilma é uma c.d.f. obcecada por políticas públicas. Quem leu sua entrevista no livro organizado pelo Marco Aurélio Garcia e pelo Emir Sader não pode ter deixado de se divertir com a diferença entre as coisas que os entrevistadores querem perguntar e as coisas que ela quer responder: os caras lá falando do liberalismo, de não sei o que mais, e ela animadona com um jeito de furar poço de petróleo, com um jeito qualquer de administrar hospital. Respeito muito o Marco Aurélio, que foi meu professor, mas a Dilma sai da entrevista muito melhor que ele e o Sader.
Me anima especialmente que, em vários momentos, tenha visto Dilma puxando o assunto das políticas de inovação. O Brasil não vai dar um salto qualitativo em termos de desenvolvimento enquanto não produzir tecnologia. Tecnologia é o tipo de coisa que depende de bons arranjos entre governo e setor privado, e, a crer nos relatos até agora a respeito de sua passagem pelo ministério de Minas e Energia, Dilma tem uma postura pragmática saudável nessas questões.
Lula deu ao capitalismo brasileiro milhões de novos consumidores, e essa descendência política exigirá de Dilma compromisso forte com a inclusão social. Mas agora é hora de dar ao capitalismo brasileiro a competitividade necessária para que ele gere os empregos de que precisam os novos ex-miseráveis, os formandos do ProUni, ou das novas Universidades Federais, inclusive; é hora de montar um Estado que entregue aos cidadãos as cidades necessárias à boa fruição da vida moderna, e montar um sistema de inovação tecnológica que tire da direita o monopólio do discurso moderno.
Por conhecer melhor do que ninguém o tamanho desse déficit, e pelo que se depreende de sua postura até agora diante desses problemas, Dilma Rousseff é a melhor opção para a presidência do Brasil nos próximos oito anos.
Até porque, contará com um recurso que só o PT tem: uma imprensa tão hostil que o sujeito realmente, realmente tem que prestar atenção para não fazer besteira. Superego é uma coisa útil, se não te trava.
4.
Certo, mas deve ter gente pensando, ah, mas ela é só uma tecnocrata, vai ser engolida pelos políticos (o bom é que essa mesma turma dizia que o Lula, por não ser um tecnocrata, ia ser engolido pelos políticos). Deve ter gente, à direita e à esquerda, com esperança de manipular a Dilma. A Dilma, no caso, é aquela menina que, aos vinte e poucos anos, inspirava respeito até nos caras do Doi-Codi, como se depreende dos documentos da época. Se quiser ir tentar manipular essa dona aí, rapaz, boa sorte, vai lá. Depois você conta pra gente como é que foi.
Celso BarrosRio de Janeiro-RJ, ele é mestre em Sociologia pela Unicamp e doutor em Sociologia pela Oxford

domingo, 15 de agosto de 2010

O "CIDADÃO KANE" ATACA NOVAMENTE

                       Na foto, o ex-ator que hoje é diretor de jornalismo

Lendo em Luis Nassif Online, aqui, o ótimo texto "A vez de jogar a Época na lama" que faz a referência a reportagem de capa do semanário das organizações Globo, na qual são feitas perguntas, as mais meigas possíveis, sobre o passado de Dilma Roussef chegamos a conclusão de que esta guerra está muito longe do fim e de que o inimigo  não se entregará facilmente nem jogará de maneira limpa. As diversas tentativas que o "Partido da Imprensa Golpista" , ou PIG,  tem feito até agora para manipular a vontade do povo não surtiram efeito: A ficha falsa de Dilma, O ex-prisioneiro que disse ter sido abusado pelo Presidente Lula quando estavam em uma prisão, os ataques à Petrobrás, A celeuma da fabricação de dossiês a partir do Comitê Central da campanha do PT nada dissso deu certo. A "Época" retoma um tema que a oposição e o PIG, através da FSP., já tentaram explorar antes que foi recorrer ao passado de Dilma. Muitos "post"  têm sido colocados na rede  dizendo que isto não dará em nada e, até certo ponto, concordo com eles. Mas a discussão não é essa! O problema maior é que estamos num país que se diz já maduro democraticamente. Onde as instituições se dizem consolidadas, onde órgãos como a OAB se preocupam até com a licença médica de um Ministro do STF(estou falando da celeuma envolvendo o Ministro Joaquim Barbosa). Então a pergunta que cabe é: Não há nenhuma instituição neste país capaz de questionar esta atitude de alguns órgãos da imprensa? Pode jornais, telejornais e revistas agirem de modo francamente parcial em favor de um único candidato? Há democracia  nessas atitudes? a justiça está sendo feita e o direito inalienável à informação que o cidadão tem está sendo respeitado? Acho que não. A atuação nos domínios da Internet tem sido exemplar. o próprio Presidente Lula manifestou isto em forma de vídeo. Mas será que isso é suficiente? Não será a hora de levarmos o que está acontecendo na imprensa brasileira para o conhecimento daqueles que não têm acesso à blogosfera? Também acho que sim. A grande pergunta, que talvez seja respondida em outro "post" é: como? Como combateremos no mundo real uma rede de televisão, um jornal, uma rádio? Que estratégia será usada? Não tenho respostas. Mas tenho uma certeza: ou os que se sentem indignados e prejudicados com esse estado de coisas encontram soluções para este verdadeiro atentado aos princípios da democracia ou estaremos fadados a, em toda eleição,  ficarmos com o coração na mão, temendo que o vitorioso seja não o escolhido pelo povo, mas o escolhido pelo "quarto poder".
by "the teacher"

O MUNDO VAI ASSISTIR PASSIFICAMENTE A MAIS UM HOLOCAUSTO?

As mentiras sobre Hiroshima são as mentiras de hoje

por John Pilger 
 
No aniversário do lançamento da bomba atómica sobre Hiroshima, a 6 de Agosto de 1945, John Pilger descreve a 'sucessão de mentiras' desde a poeira daquela cidade destruída até às guerras de hoje – e à ameaça do ataque ao Irão.
 
 
 
Quando fui a Hiroshima pela primeira vez, em 1967, ainda ali se encontrava a sombra nos degraus. Era uma imagem quase perfeita de um ser humano descontraído: as pernas esticadas, as costas dobradas, uma mão na cintura, enquanto estava ali sentada à espera que o banco abrisse. Às oito e um quarto da manhã de 6 de Agosto de 1945, ela e a sua silhueta ficaram gravadas a fogo no granito. Fiquei a olhar para aquela sombra durante uma hora ou mais, depois desci até ao rio e encontrei um homem chamado Yukio, que ainda tinha gravado no peito o padrão da camisa que vestia quando caiu a bomba atómica.

Ele e a sua família ainda viviam numa cabana enterrada na poeira de um deserto atómico. Descreveu um gigantesco clarão sobre a cidade, "uma luz azulada, como um curto-circuito eléctrico", depois do que soprou um vento como um tornado e caiu uma chuva negra. "Fui atirado ao chão e só reparei que os pés das minhas flores tinham desaparecido. Estava tudo calmo e silencioso e, quando me levantei, as pessoas estavam todas nuas e não diziam uma palavra. Algumas delas não tinham pele, outras não tinham cabelo. Tive a certeza de que estava morto". Nove anos depois, quando lá voltei e o procurei, ele tinha morrido com leucemia.

Imediatamente depois da bomba, as entidades aliadas de ocupação proibiram qualquer referência ao envenenamento por radiações e afirmaram insistentemente que as pessoas tinham morrido ou sofrido danos apenas pela explosão da bomba. Foi a primeira grande mentira. "Não há radioactividade nas ruínas de Hiroshima", dizia a primeira página do 
New York Times, um clássico da desinformação e da subserviência jornalística, que o repórter australiano Wilfred Burchett denunciou com o seu 'furo' do século. "Estou a escrever isto como um alerta a todo o mundo", noticiava Burchett no Daily Express, quando chegou a Hiroshima depois de uma perigosa viagem, o primeiro correspondente que se atreveu. Descreveu salas hospitalares cheias de pessoas que não tinham ferimentos visíveis mas que estavam a morrer duma coisa a que ele chamou "uma peste atómica". Por ter contado esta verdade, retiraram-lhe a credencial de imprensa, foi ridicularizado e caluniado – e inocentado.

A bomba atómica de Hiroshima foi um acto criminoso a uma escala épica. Foi um assassínio de massas premeditado que pôs à solta uma arma de criminalidade intrínseca. Por causa disso, os seus defensores refugiaram-se na mitologia da suprema "guerra boa", cujo "banho ético", conforme Richard Drayton lhe chamou, tem permitido ao ocidente não só desculpar o seu sangrento passado imperial mas promover 60 anos de guerra de rapina, sempre à sombra de A Bomba.

A mentira mais duradoura é que a bomba atómica foi lançada para acabar com a guerra no Pacífico e salvar vidas. "Mesmo sem os ataques das bombas atómicas", concluiu o Strategic Bombing Survey dos Estados unidos, em 1946, "a supremacia aérea sobre o Japão podia ter exercido pressão bastante para provocar uma rendição incondicional e evitar a necessidade de invasão. Com base numa investigação pormenorizada de todos os factos, e apoiada pelo testemunho dos lideres japoneses sobreviventes envolvidos, é opinião do Survey que … o Japão se teria rendido mesmo que não tivessem sido lançadas as bombas, mesmo que a Rússia não tivesse entrado na guerra e até mesmo se não tivesse sido planeada ou contemplada qualquer invasão".

Os Arquivos Nacionais de Washington contêm documentos do governo dos EUA que representam em gráfico as tentativas de paz japonesas já em 1943. A nenhuma delas foi dado seguimento. Um telegrama enviado em 5 de Maio de 1945 pelo embaixador alemão em Tóquio e interceptado pelos EUA dissipa todas as dúvidas de que os japoneses estavam desesperados para suplicar a paz, incluindo "capitulação mesmo que as condições sejam pesadas". Em vez disso, o secretário americano da Guerra, Henry Stimson, disse ao presidente Truman que tinha "receio" de que a força aérea americana "bombardeasse" o Japão de tal modo que a nova arma não pudesse "mostrar a sua força". Posteriormente reconheceu que "não tinha sido feita nem considerada qualquer tentativa para conseguir a rendição apenas para não ter que utilizar a bomba". Os seus colegas da política externa estavam ansiosos "por intimidar os russos com a bomba que trazíamos bastante ostensivamente à cintura". O general Leslie Groves, director do Projecto Manhattan que fez a bomba, testemunhou: "Nunca tive qualquer ilusão de que o nosso inimigo era a Rússia e que o projecto foi orientado nessa base". Um dia depois de Hiroshima ter sido arrasada, o presidente Truman manifestou a sua satisfação pelo "êxito esmagador" da "experiência".

Desde 1945, pensa-se que os Estados Unidos estiveram à beira de usar armas nucleares pelo menos três vezes. Ao travar a sua fictícia "guerra contra o terrorismo", os actuais governos de Washington e de Londres declararam estar preparados para fazer ataques nucleares "preventivos" contra estados não nucleares. A cada avanço para a meia-noite de um Armagedão nuclear, as mentiras de justificação são cada vez mais escandalosas. O Irão é a actual "ameaça". Mas o Irão não tem armas nucleares e a desinformação de que está a planear um arsenal nuclear provém sobretudo de um grupo da oposição iraniana, o MEK, patrocinado por uma CIA desacreditada – tal como as mentiras sobre as armas de destruição maciça de Saddam Hussein tiveram origem no Congresso Nacional Iraquiano, montado por Washington.

O papel do jornalismo ocidental em levantar este espantalho é fundamental. Que a Defence Intelligence Estimate da América tenha dito "com toda a confiança" que o Irão desistiu do seu programa de armas nucleares em 2003, foi remetido para o buraco do esquecimento. Que o presidente do Irão, Mahmoud Ahmadinejad, nunca tenha ameaçado "varrer Israel do mapa" não tem qualquer interesse. Mas tamanha tem sido a mística lenga-lenga dos meios de comunicação deste "facto" que, na sua recente representação subserviente perante o parlamento israelense, Gordon Brown aludiu a isso, quando mais uma vez ameaçou o Irão.

Esta progressão de mentiras conduziu-nos a uma das mais perigosas crises nucleares desde 1945, porque a ameaça real mantém-se quase impossível de referir nos círculos governamentais ocidentais e portanto nos meios de comunicação. Há apenas uma potência nuclear desenfreada no Médio Oriente e é Israel. O heróico Mordechai Vanunu tentou alertar o mundo em 1986 quando forneceu provas de que Israel estava a construir 200 ogivas nucleares. Desafiando as resoluções das Nações Unidas, Israel está actualmente ansiosa por atacar o Irão, com receio de que uma nova administração americana possa, apenas possa, efectuar genuínas negociações com uma nação que o ocidente tem caluniado desde que a Grã-Bretanha e a América derrubaram a democracia iraniana em 1953.

No 
New York Times de 18 de Julho, o historiador israelense Benny Morris, outrora considerado um liberal e actualmente consultor da instituição política e militar do seu país, ameaçou "um Irão transformado num deserto nuclear". Isso seria um assassínio de massas. Para um judeu, é uma ironia gritante.

Impõe-se a questão: vamos nós todos ser meros espectadores, afirmando, como fizeram os bons alemães, que "nós não sabíamos"? Vamos esconder-nos cada vez mais por detrás do que Richard Falk designou por "uma cortina legal/moral, beata, de uma só face" [com] imagens positivas de valores e inocência ocidentais, apresentada como estando ameaçada, validando uma campanha de violência ilimitada"? Está outra vez na moda apanhar criminosos de guerra. Radovan Karadzic está no banco dos réus, mas Sharon e Olmert, Bush e Blair não estão. Porquê? A memória de Hiroshima exige uma resposta. 
 
08/Agosto/2010
 
Tradução de Margarida Ferreira. 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ 
Blog fonte: Cidadã do Mundo
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